sexta-feira, 12 de abril de 2013

Visões do Outro Mundo #01


Não imponha (tantos) limites para a imaginação dos seus jogadores

Todos os mestres um dia tiveram que vetar o personagem de algum jogador, assim como todo jogador um dia já teve seu personagem vetado. Os motivos variam: "muito poderoso", "irreal", "não bate com o cenário", "o grupo já tem conjurador demais", etc. 

Para o jogador, isto pode ser bastante frustrante. Ele pode se sentir acuado, impossibilitado de jogar com o personagem que ele considerava ideal por que "o mestre não deixou", quase como se estivesse seguindo a ideia do "faça o que você quiser, desde que eu permita".

Por outro lado, também o mestre muitas vezes passa por algo frustrante: ter de lidar com jogadores que não levam sua campanha a sério, querendo criar personagens incompatíveis com o cenário ou mesmo os famosos personagens Overpower.

Como sempre, cabe ao mestre decidir... será?

Todos sabem que uma sessão de RPG não é composta de apenas uma pessoa. A história não existe sem um Mestre, mas ela também não existe sem seus jogadores. A aceitação de um personagem não cabe apenas ao mestre, mas a ambos: jogador e mestre devem chegar num consenso.

Não é por que um personagem parece ser “estranho” que ele não tem sua importância para o grupo.

Há muitos anos adotei a ideia de que "vetar personagens é algo ruim", ao menos num primeiro momento. Eu nunca veto personagem algum sem antes considerar algumas coisas, excluindo propostas absurdas como "eu quero ser um Jedi" em uma campanha de Forgotten Realms. Para estes, eu solto uma risada e um audível não (por que alguns jogadores, por incrível que pareça, não entendem o sarcasmo na risada). Para todos os outros, eu levanto uma sobrancelha e pergunto "Por quê?".

"Por que você quer ser um Khadorano, se você sabe que nossa aventura irá acontecer na capital rival de Khador, e qualquer pessoa armada que te ver irá querer te cortar em pedaços?".

Então aguardo, em silêncio, a resposta. É uma brincadeira divertida, e brinca com o objeto principal de qualquer campanha de RPG: a imaginação.

O exemplo que citei é um exemplo real que aconteceu recentemente na minha aventura de Reinos de Ferro. Eu tinha deixado bem claro na sinopse que a aventura se passaria em Caspia, e que Caspia estava em guerra contra Khador. Ainda assim, um jogador veio com a ficha justamente de um Khadorano. Nestes momentos, você percebe se o jogador está realmente interessado na aventura, ou se está mais a fim de te encher o saco. No meu caso, chegamos a uma história interessante que explicava por que ele estaria em Caspia mesmo sendo Khadorano, e ambos ficamos satisfeitos. Quando o contrário acontece, das umas uma: ou eu veto o personagem, ou ele é feito em pedaços por algum soldado do exército Caspiano... assim como eu havia avisado *sorriso maléfico*.

Outro exemplo interessante é o de uma campanha que estou montando, onde os personagens são algo como mutantes superpoderosos, uma mistura estranha entre Dragon-Ball, Cavaleiros do Zodíaco e X-men. Nem sequer comecei a campanha, e um dos jogadores já falou que "quer fazer um personagem cuja principal habilidade será sua inteligência: ele irá construir coisas que irão ajudá-lo em combate”.

Logo de cara pensei "PUTZ. Eu venho falando de X-men, e ele vem falando de Batman". Acontece. Ao invés de ficar irritado com aquilo, tentei imaginar como encaixar um personagem assim na minha história, e já estou empolgado com os resultados.

Jamais limite demais a imaginação do seu jogador. Ela é uma arma muito poderosa, e provavelmente o principal motivo de jogarmos este jogo tão divertido. O processo de aceitação de um personagem deveria seguir mais ou menos os seguintes passos:

1 - Descubra as intenções do jogador. Ele está criando um personagem "estranho" ou "difícil" apenas por que quer te desafiar, ou ele está realmente interessado na história? Caso ele esteja interessado, vale a pena dar uma chance.

2 – Pergunte-se se o personagem irá chamar atenção demais para si, tirando o foco dos outros personagens envolvidos na trama. Isto faz parte do equilíbrio do grupo.

3 – Pergunte-se se o personagem é poderoso a ponto de desequilibrar a campanha. Lembre-se que poder nem sempre é expresso em combate. Se o personagem é um rei ou um príncipe, enquanto todos os outros são meros plebeus, ele ainda está desequilibrando a aventura por ser "poderoso demais".

4 – Pergunte-se se o personagem adiciona algo à trama. Geralmente, não aceite personagens que não adicionam nada a sua trama. Este é o oposto do jogador que quer fazer um personagem "complicado": o jogador simplório. Um personagem sem histórico e sem "vida" não é nada a não ser um peso morto na aventura. Ele não tem um motivo, não tem um passado e, por isso, provavelmente não terá um futuro.

5 – Pergunte-se se você terá que mudar as regras do sistema para aceitar este personagem. Apesar disto não ser proibido, tome cuidado com este tipo de personagem. As regras dos sistemas são – supostamente - testadas e equilibradas. Quando alguém resolve "inventar uma nova raça" - por exemplo - o tiro pode acabar saindo pela culatra e desequilibrando tudo.

Seguindo estes passos simples, fica fácil decidir se o personagem será bom para a campanha ou não. É claro que sempre existirá aquele personagem que mexe com os limites do aceitável e faz você pensar por dias se irá aceita-lo ou não. Nada é fácil, não é mesmo?

Lembre-se também que um veto é sempre muito ruim, por mais que você tenha motivos plausíveis para isso. A melhor solução será sempre tentar “alterar” o personagem para que ele se encaixe da melhor forma possível na trama.

Boa aventura para vocês e nos vemos na próxima sessão!
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Esta é uma nova coluna do Mundo RPG e eu sou um novo colunista (rs). Você já deve ter lido ali na direita, mas é sempre bom enfatizar: "os blogs se alimentam de comentários, não os deixe morrer". Quer você tenha uma história sobre algum personagem estranho que você aceitou em uma campanha, quer você apenas queira deixar sua opinião sobre a coluna, não esqueça de comentar! 

Na “Visões do Outro Mundo", o tema é imaginação. Irei tratar de ideias novas para aventuras, ganchos interessantes, inspirações e tudo o mais que pode enriquecer sua campanha. 

Até a próxima!
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1 comentários

  1. Perfeita colocaçao, o bom eh, q eu estava presente na guerra caspiana contra os khadoranos e terei o privilegio de nessa sua nova aventura, sucesso ai grande amigo!

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